TEM BRANCA NO SAMBA

UM NOME CHEIO DE PRECONCEITO E HISTÓRIA !!

Reza a lenda que SIM, foi preconceito !!!

Mas ao contrário do que disseram, foi preconceito com os brancos !!!

...

Quando divulguei o nome do meu próximo show (08/08/2014 -  Teatro Bruno Kiefer) no facebook, sofri várias críticas (ok, dou a cara a tapa pra isto mesmo). Recebi várias mensagens de pessoas me apontaram como racista e preconceituosa (ok, liberdade de expressão, prevista na Constituição Federal) por trazer o nome do meu show como “TEM BRANCA NO SAMBA”.

Mal sabia eu que tinha uma história tão bonita por trás deste nome...NUNCA imaginei que minha família tivesse feito história no samba de Bagé. Mas fez !!!

Explico.

Escolhi este nome porque lembrava do meu pai usando muito uma gíria que dizia “tem branco no samba”, sempre que contava as histórias de quando ele era da Copacabana (escola de samba de Bagé) ou sempre que alguém errava o samba quando ele cantava e/ou batucava (sim, ele sempre achava um tambor, balde, copo ou qualquer coisa que fizesse barulho)  numa roda, nas festas da polícia (onde ele trabalhava) ou da secretaria de saúde (onde minha mãe trabalha).

Mas devido as críticas e acusações, liguei pra ele querendo saber exatamente de tudo o que realmente tinha acontecido naquela época e o porque dele sempre usar a gíria “tem branco no samba”.

Foi aí que ele me contou as suas (dele, do meu avô e dos meus tios avôs) peripécias no samba.

Bueno... cansei de me acordar nos domingos de manhã, com meu pai ouvindo Bezerra da Silva (que eu adoro...rsss) a todo o volume, mas jamais poderia imaginar que minha família tinha história no samba.

Agradeço aos que me acusaram de preconceituosa... (nada é por acaso) foi por conta das críticas de vocês que fui saber mais com meu pai o que realmente tinha acontecido naquela época.

Então lá vai:

Era uma vez... um menino de uns 15/16/17 anos (meu pai), que sempre ouvia o samba tocado pela Escola de Samba que tinha sede ao lado de sua casa, lá na cidade de Bagé, a escola Copacabana.

Um belo dia ele resolveu que queria fazer parte desta escola, então, ele (meu pai), meu avô (Seu Rafael) e os irmãos do meu avô (Tio Walter e Tio Bira) foram integrar a Escola de Samba Copacabana.

Meu Tio Bira (já falecido) tocava o “maracanã”, instrumento que segundo meu pai, era um tamborzão enoooorrrrmmmeeeee que era tocado com a mão, parece que hoje já não é mais (procurei na internet e não achei a foto dele). Meu Tio Walter chegou a ser Presidente da escola, meu avô Rafael, vice. E pasmem... meu pai foi puxador de samba da Copacabana. Toma !!! Fiquei bota faceira, nunca que eu ia imaginar isto !!!

Ele me contou com o maior orgulho. Disse: “Nós éramos os 4 ÚNICOS BRANCOS DA ESCOLA, tio Walter foi Presidente, teu avô vice, o tio Bira era da bateria E EU É QUE PUXAVA O SAMBA”.

Conta meu pai, que quando estavam tocando e havia algum erro na bateria (independente de quem errasse – negros ou branco (no caso SÓ meu Tio Bira...rsss)) ou no samba dos(as) passistas, sempre tinha um pra gritar “TEM BRANCO NO SAMBA”. Diz que eles usavam esta gíria direto... usavam pra sacanear eles (os 4 brancos) e dizer que “branco não sabia fazer samba” (que naquele caso, até tinham razão...rssss). Tinha outra gíria também que usavam quando dava erro, mas que meu pai não soube me dizer o significado. Era “Deu água”.

Hoje, quase 50 anos depois, a comunidade do samba já está repleta de brancos, e brancos que sabem fazer samba sim !!!

Bueno, eu que me sentia uma intrusa no samba, agora até me sinto um pouquinho mais sambista, sabendo que nas minhas veias corre um pouquinho deste sangue.

Também, resolvi usar este nome porque acho bonitinho quando as minhas “Nêgas” me chamam de branca...rsssss... Sim, tenho amigas negras (me nego a usar “afro-descendente”,  porque pra mim este termo é mais do que racista), as quais admiro pra caramba... mas pensa em pra caramba...e a quem sempre chamo de “Nêga”... e uma delas me retribui o carinho me chamando de “Branca”... 

Opa, será que este “Branca” é carinho ou preconceito dela comigo !?!??! huhuahuahua

Nêga Júlia, to de brincadeira... sei que é com todo o carinho do mundo, assim como eu te chamo... e vou dizer mais....ADOROOOOOOOOO....

Em suma, o nome do meu show É SIM PRECONCEITUOSO... mas preconceituoso com os brancos. rssss.. É quase um auto preconceito !!! rssss

E para quem leu, leu e ainda não entendeu, deriva de uma gíria usada nos idos de 1970 lá na Copacabana de Bagé (e talvez em outros lugares, não sei)... quando os negros, criadores e sabedores do samba se arriavam nos brancos (os 4 da minha família), não ou pouco entendidos de samba.

Ah, parece que por uns 2 anos, eles foram os únicos 4 brancos da escola, depois os outros branquelos viram a aceitação da escola com a minha família e começaram a tomar coragem e integrar o grupo.

O preconceito está na cabeça de quem vê !!!

E tenho dito!!!  TEM BRANCA NO SAMBA sim !!!

Branquinha por fora e pretinha por dentro !!!

Ai ai ai bate este tambor !!!

#tembrancanosamba     #aiaiaibateestetambor